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Resenha de Cinema pela psicanalista Eleonora Rosset

“Não olhe pra trás” Danny Collins, Estados Unidos

Esse foi o último filme que os irmãos Taviani assinaram, pois Vittorio morreu em abril de 2018, aos 88 anos, terminando uma parceria de mais de 60 anos de filmes premiadíssimos, feitos por ele e o irmão Paolo, 86 anos.

Alíás, estamos duplamente enlutados porque um dos produtores desse último filme, Ermanno Olmi, outro grande nome do cinema italiano, diretor de “Árvore dos Tamancos”, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes, também faleceu esse ano.

“Uma Questão Pessoal” foi adaptado do romance de Beppe Fenoglio, publicado em 1963, que escreveu sobre a Resistência na Itália, durante a Segunda Guerra. Entretanto, no filme o foco do roteiro, assinado pelos irmãos Taviani, está em um triângulo amoroso e a guerra é um pano de fundo. Mostrada com realidade, sem dúvida e o filme é importante como testemunho da luta contra o fascismo. Mas é numa guerra íntima que o filme está mais interessado.

Milton (Luca Marinetti, excelente ator) fica conhecendo Fúlvia (Valentina Bellè) através do amigo Giorgio (Lorenzo Richelmy). Vemos os três juntos durante o verão de 1943, na bela casa de campo da família de Fúlvia. Milton está claramente apaixonado mas não se declara, por timidez e medo de ser rejeitado. Ela, por sua vez, troca longos olhares com Milton enquanto dança com Giorgio. Fúlvia é coquete e flerta com os dois.

Quando a guerra chega ao Piemonte em 1944, Milton e Giorgio entram na resistência. E o filme começa com Milton, armado, com um companheiro, imersos numa densa neblina. De repente, Milton larga tudo e começa a subir correndo a colina. Vemos o outro gritar seu nome mas ele não atende. E chega a seu destino.  A casa de Fúlvia, bela e fechada.

A caseira vem ver quem está ali e reconhece Milton. Ele pergunta sobre a moça, se mandou notícias. Mas não. E a mulher, entrando na casa com ele, sem querer, envenena o coração de Milton, contando dos encontros noturnos de Fúlvia e Giorgio, naquele verão passado.

Cego de ciúmes e raiva, Milton sai à procura de Giorgio.

O belo Giorgio, de família rica e Milton, de uma classe social inferior, eram amigos íntimos, apesar da diferença entre eles. E Milton se divide agora entre o ódio que sente do amigo e a vontade de não querer acreditar que ele o traiu.

Na verdade, Milton está enlouquecido pois não havia nada de sério entre ele e Fúlvia, além da paixão platônica, não declarada e longas cartas que ele enviava quando Fúlvia ia a Turim.

Não à toa, a música “Over The Rainbow”, cantada por Judy Garland ou só em notas interrompidas, é ouvida durante o filme. Magia e nostalgia.

E a neblina densa, que ora esconde a paisagem, ora dá lugar ao sol brilhante, é como se fosse uma metáfora para a paixão que cega Milton.

“Uma Questão Pessoal” é um filme poético, com sentimentos que eclodem vindos de uma parte autodestrutiva de Milton que quer matar e morrer.

Felizmente ele descobre a tempo que quer viver.

Bravo aos irmãos Taviani! Adeus a Vittorio…

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