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Resenha de Cinema por Eleonora Rosset

A cena abre com dois homens andando na noite num campo deserto, à beira de um rio. De repente, um deles ataca o outro com golpes na cabeça. Depois, joga gasolina no corpo e põe fogo. Essa cena vai aparecer outras vezes durante o filme, inclusive com um outro autor.

Mas Misumi (o extraordinário ator Yakusho Koji) confessa o crime. Matou o patrão, dono da fábrica onde trabalhara e fora demitido. Acontece que esse é o terceiro assassinato que o homem assume. Já tinha cumprido 30 anos de prisão por causa da morte de dois agiotas.

No Japão, a pena de morte é aplicada, apesar do protesto popular. Talvez o grande cineasta Kore-Eda, 56 anos, famoso por seus filmes sobre a família (“Pais e Filhos”2013, “Nossa Irmã mais Nova”2014), mudou de assunto em “O Terceiro Assassinato” para ajudar o clamor contra a pena de morte.

No filme, o advogado de defesa, jovem, filho de um juiz aposentado que julgara o mesmo réu nos crimes anteriores e o livrara da pena capital, Shigemori (Fukuyama Masaharu), foca sua estratégia de atuação em entrevistas com pessoas que conheceram a vítima e o réu, para poder livrá-lo da pena de morte e transformá-la em prisão perpétua.

Acontece que o réu, Misumi, surpreendentemente, muda sua versão dos fatos a cada entrevista que tem com o advogado no parlatório da prisão, que separa os dois homens por um vidro. Às vezes, os rostos se sobrepõem, o que aproxima os dois homens, aparentemente tão distantes.

Mas por que Misumi altera suas versões sobre o que acontecera? Ninguém sabe. Só ele. O fato é que somente sua própria confissão o condena, já que não há testemunhas do crime. E se ele muda constantemente a história, como defendê-lo?

O filme é longo, com muitas falas. Entramos num labirinto de depoimentos que aponta cada um para um lado diferente. Mas o advogado de defesa decide levar adiante essas conversas, apesar de sua estratégia inicial não ter nada a ver com conhecer a verdade, mas sim com o objetivo de livrar Misumi da morte certa.

Kore-Eda volta a seu tema preferido, a família, para orientar as investigações do advogado. Assim, ele vai até a casa da viúva da vítima, que ainda não recebeu o seguro pela morte do marido. Ali fica conhecendo a filha do industrial morto, Sakie (Hirose Suzu, de “Nossa Irmã mais Nova”) e descobre que, estranhamente, ela conhece bem o réu.

Visita também a proprietária da casa que Misumi alugava e fica sabendo de mais coisas sobre ele. Os operários que trabalhavam com Misumi na fábrica também são ouvidos.

Enquanto isso, o juiz, pai do advogado de defesa que livrara Misumi da pena de morte no passado, muda de opinião e acha que ele merecia a pena naquela época, o que teria evitado o terceiro assassinato.

Ou seja, a verdade se esconde e cada depoimento aumenta a desconfiança do advogado de que o réu é inocente. Mas ele parece não se importar com sua própria sorte. Será que ele está confundindo a justiça para encobrir outra pessoa?

O filme é humanista e se interessa mais pelas pessoas do que com a verdade, sempre relativa. Assim, acusa a justiça dos tribunais de não se importar com o destino dos réus, levanta a cortina que esconde relações familiares incestuosas, denuncia práticas comerciais indecorosas e interesses financeiros escusos.

Um filme para poucos. Requer muita atenção nos diálogos. Interessará aqueles que gostam de percorrer os labirintos da mente humana e que se fazem a pergunta: temos o direito de julgar os outros?

 

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