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Resenha de Cinema pela psicanalista Eleonora Rosset

“O farol das orcas” Direção Geraldo Olivares

A Patagônia é uma região selvagem e bela. Altas falésias, dunas imensas e o mar azul indo e vindo com suas marés, desenhando sempre novos contornos nas pedras onde se deitam ao sol os leões marinhos, observados pelas gaivotas.

Um farol vermelho é a única construção na paisagem deserta.

Lá vive isolado, Roberto Bubas (Joaquin Furriel), biólogo marinho que escreveu um livro, “Agustín corazón abierto”, sobre suas vivências com as orcas da Península de Valdés.

Na Espanha, por causa de uma reação inusitada de seu filho autista quando assistia a um documentário sobre Beto e as orcas, sua mãe Lola (Maribel Verdú), resolveu viajar para conhecer esse lugar.

Sua esperança era que o filho, diagnosticado com a síndrome autista aos 2 anos de idade, pudesse mostrar o mesmo interesse e a alegria que ela viu acontecer frente à TV. Esperava na verdade um milagre.

Foi a primeira vez que Lola presenciou tal reação no filho e ela, que o educava sozinha, faria qualquer coisa para que isso se repetisse. Ela queria mais. Tinha a certeza que Beto e suas orcas eram o melhor remédio para Tristán (Joaquin Rapalini Olivella).

O livro de Beto conta tudo sobre essa história real e foi adaptado para o filme “O Farol das Orcas”, produzido pela Netflix.

Durante muitos anos o biólogo estudou o comportamento de caça das orcas, que se aproximam da areia da praia  para conseguir capturar leões marinhos que nadam sem ter noção do perigo que correm.

As orcas, que são conhecidas erradamente como “assassinas”, são animais inteligentes que desenvolveram esse tipo de caça unicamente naquela península da Patagônia. É uma luta pela sobrevivência, lei da natureza, quando uma espécie é alimento para a outra.

Beto não apenas observa com seu binóculo, fotografa e segue as orcas em seu bote. Ele é a prova viva de que as orcas não atacam seres humanos na natureza. Nunca houve registro de uma ocorrência desse tipo.

Mas Beto também é o “encantador de orcas”. Com sua gaita, atrai a baleia preta e branca para a praia. Fala com ela e a acaricia e sua intimidade vai mais longe. Segura a barbatana dorsal de Shaka, a fêmea mais amiga e mergulham juntos.

Quando o menino autista chega com sua mãe, Beto recebe os dois na casinha dele, pequena e repleta de desenhos de orcas, fotos, lembranças de vida e uma caixa de madeira que guarda brinquedos, que ele não deixa ninguém abrir. É um segredo íntimo de Beto que ele só vai contar para Lola, tempos depois.

O filme é belo e fala muito perto com nossas emoções. Os atores são convincentes e verdadeiramente envolvidos com seus personagens. As cenas exteriores são belíssimas, mostrando um lugar privilegiado pela natureza e protegido.

Quem gosta de animais vai adorar esse filme que fala sobre a disponibilidade e a prontidão para o amor. Beto, amante do silêncio e sem pressa para conseguir resultados, consegue milagres com as orcas e com aquela mãe desesperada e seu filho de olhar perdido. E como é bonito de se ver ele fazer isso com tanta delicadeza e respeito.

Uma frase do biólogo ressoa nos nossos ouvidos e explica a atitude dele perante a vida:

“Há pessoas que se irritam com aquilo que não entendem e outras que não querem entender o que as irrita.”

Beto era o contrário dessas pessoas.

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