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Resenha de Cinema pela psicanalista Eleonora Rosset

O que é uma família? A tradicional tem na receita pai, mãe e filhos. Mas, a cada dia que passa, vemos surgirem novas fórmulas que funcionam bem, porque se prestam ao que as crianças precisam. A família existe para proteger, alimentar e preparar os filhos para o futuro. É uma instituição a serviço da sobrevivência da espécie.

Bem, mas não é todo mundo que tem vontade de formar uma família. Samuel (Omar Sy), por exemplo, está muito tranquilo e confortável na vida de solteiro à beira-mar, na famosa “Côte d’Azur”.

Ele é o encarregado de divertir os hóspedes do “résort” onde trabalha e, para ele, tudo está perfeito. Leva uma vida sem responsabilidades, muitas namoradas e noitadas intermináveis até o sol nascer. E tudo recomeçar.

Até que…Pois é. A vida boa de Samuel termina de repente. Uma bebê de meses é colocada em seu colo, sem maiores explicações, por uma ex-namorada da qual já havia se esquecido, Kristin (Clémence Poésy), que afirma que ele é o pai da criança. E, assim como aparece, do nada, desaparece.

Atônito, Samuel tenta em vão chamar a fugitiva de volta. Ela sumiu. E Glória, a bebê, chora desesperada.

Há ocasiões em nossa vida que precisamos improvisar e Samuel, sem ter uma ideia melhor, larga a praia francesa e vai atrás da mãe de Glória, que parece que mora em Londres.

Mas, mesmo pai de primeira viagem e nada à vontade no papel, Samuel vai se ajeitando. Bebês precisam de atenção constante, alimento a horas certas e proteção carinhosa. Felizmente Samuel possui a ternura na medida certa para conquistar Glória e ser o pai-mãe dela.

Seu sorriso de dentes brancos brilhantes, estatura de gigante, carisma natural e cara de gente boa, atraem a atenção solidária de Bernie (Antoine Bertin), que simpatiza com o pai atrapalhado, que não fala inglês e acolhe a dupla perdida.

Até emprego de dublê no cinema ele arranja para Samuel. Torna-se o melhor amigo e protetor de pai e filha. O fato dele ser gay não interfere na relação com Samuel, que não é preconceituoso e sabe ser grato a quem lhe estende a mão.

É divertido ver o apartamento que Samuel inventou para a filha, um verdadeiro parque de diversões, que se torna o cenário do crescimento de Glória (Gloria Colston, um encanto de atriz). Os dois são “unha e carne”.

Samuel não desiste de procurar a mãe de sua filha na internet e inventa uma história maluca sobre a identidade da desaparecida, que convence a menina de não ter perdido a mãe para sempre.

Mas aos oito anos de convivência feliz, a mãe de Glória reaparece  novamente do nada e quer a filha. Assim como abriu mão dela sem explicações, reaparece exigindo exercer sua função de mãe. Isso mexe com a dupla e exige uma posição firme de Samuel.

O filme é uma refilmagem de um filme mexicano, “No se aceptam devoluciones” (2013) e parece que o diretor Hugo Gélin, em seu segundo longa, conseguiu melhorar a história e o clima do filme no qual se baseia. Levou milhões de franceses e alemães ao cinema.

Ternura, bom humor e uma lágrima vão conquistar também os brasileiros. E com razão. Só os mais implicantes vão torcer o nariz. Os outros vão sair do cinema emocionados.

Fonte www.eleonorarosset.com.br

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