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Coluna: Fora do Ninho – Sotaques

É muito estranho chegar em um lugar novo com pessoas novas, que vieram de todos os lugares possíveis. Depois da fase da adaptação à nova cidade, entra em cena a adaptação às pessoas.

Cada pessoa traz uma história de vida, uma bagagem cultural, uma criação com valores específicos, que muitas vezes são bem diferentes dos seus. Pode ser que estas pessoas tragam sotaques diferentes. Você se pergunta “como é possível pessoas de um mesmo país falarem tão diferente?”

São inúmeras as situações que acontecem pela diferença de sotaques. Muitas vezes você vai falar uma palavra que as pessoas não vão entender, então você tem que explicar, e esta experiência de explicar acaba sendo muito estranha, pois para você sempre foi tão normal e automático falar aquilo daquela maneira.

Já passei por uma situação engraçada. Estava em casa jantando com três amigos, quando fui abrir um refrigerante e o mesmo supitou (se você é de Minas, provavelmente sabe o que significa esta palavra). Ao afirmar “O refri supitou”, dois dos meus amigos que são do interior de São Paulo me olharam com estranheza, nunca ouviram a palavra antes. O que pra mim era um valor universal, usar esta palavra quando o refrigerante transborda pelo excesso de gás, caiu por terra. Eu e meu outro amigo mineiro ficamos explicando o que significava, ficamos bem chocados por não ser uma palavra usada por todos em todos os lugares.

Há também a situação inversa, as outras pessoas precisam te ensinar palavras novas que você nem sequer havia ouvido. Quando paramos para perceber, nosso jeito de falar se modifica para uma mistura de sotaques de todas as regiões. “Ô guri, quanto tá o quilo do aipim, uai?”

O mais estranho talvez seja voltar para casa e perceber como você falava diferente. É estranho ouvir as pessoas que estiveram com você a vida toda falarem diferente. Estamos tão acostumados com nossa nova mistura de sotaques que o seu habitual parece errado.

Se acostumar com os sotaques e, mais que se acostumar, incorporá-los ao seu, é um sinal de que a vida “lá fora” está dando certo. Conhecer de costumes e manias nos leva a conhecer lugares que talvez nem tenhamos ido. As pessoas carregam histórias que podem ser percebidas sem que elas nos contem, apenas pelo jeito de conversar. É biscoito versus bolacha em todos os lugares. O importante é que não se pode admitir seu sotaque como verdade absoluta, é preciso olhar para todos eles e aprender, rir, entender e, talvez, adotar cada nova palavra.

Fala sério, é muito encantador ouvir um sotaque diferente do seu e pensar “que diversidade linda em uma língua só!”

-Por Vitória Camargo

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