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Foi voando que aprendi a cair

Sair de casa é o sonho da maioria dos jovens, a ideia de ter independência e poder fazer suas próprias regras é tentadora. Mas morar longe dos pais vai bem além de liberdade. Significa abandonar o comodismo que lhe cerca, não acordar com o cheiro do almoço batendo à porta do seu quarto. Significa recolher as próprias roupas do chão, significa não ter colo e carinho de mãe a todo momento. Significa ter que se acostumar a sentir esse carinho por redes sociais.

Passamos o Ensino Médio imaginando o que fazer da vida. O que estaremos fazendo quando a escola acabar, onde estaremos morando, o que estudaremos. O futuro incerto é uma das fases mais tensas da nossa vida. Não saber o que nos aguarda nos deixa com medo do que está por vir, pior, nos faz pensar que talvez estaremos sozinhos, sem os pais, aprendendo a se virar. É sufocante ao mesmo tempo que é empolgante.

Eu percebi que seria complicado logo quando o resultado do vestibular saiu. Ali estava eu, havia me formado no terceiro ano e não sabia como seria minha vida. Estava na livraria com alguns livros na mão quando recebi uma mensagem. “Comemore! Você foi aprovada em um dos três primeiros colocados do vestibular!”. Era um trote, foi o que pensei. Liguei para a minha mãe e pedi para que ela confirmasse. Era verdade. Comecei a chorar, ela do outro lado da linha também chorava. Foi quando vi que a partir daquele momento ela não estaria sempre fisicamente ao meu lado, mas nunca deixaria de estar comigo.

Quando vi que a distância entre mim e a minha família só iria aumentar fiquei triste, é verdade, mas eu sabia que era necessário. Estou a 300km de distância de casa. É complicado ver as pessoas que eu amo apenas uma vez por mês. É complicado também me sentir culpada por sentir saudade da vida que levo agora quando passo muito tempo em casa, em feriados ou nas férias. Nunca me senti tão dividida entre estar feliz, estar com saudade e estar realizada.

Sinto saudades quando quero dar um abraço no meu irmão e brincar com ele, quando quero um conselho da minha mãe, quando estou jantando arroz com hambúrguer-pois acredite, o orçamento é um pouco mais curto. Quando deito a noite e sei que ninguém virá conferir se já dormi, pois não estou em casa, estou longe.

Tem sido complicado, mas tem sido gratificante, afinal, nada é melhor do que começar a construir seu sonho. Começar a dar seus próprios passos. Minha mãe mesmo disse uma vez que “é preciso sair da barra da saia da mãe para aprender a viver”. Sempre que eu penso em desistir me lembro disso. Não se aprende a alçar voo sem cair. Aprendi a me virar, a me tornar responsável, aprendo com os erros que cometo sozinha. É preciso aprender a cair, para cair, é preciso começar a voar, sozinho.

Vitória Camargo

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