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Congado sai em cortejo de devoção e fé

A devoção e a alegria de reverenciar Nossa Senhora do Rosário e São Benedito mais uma vez foram vistas em Monte Carmelo, contagiando e emocionando quem assistiu o cortejo de congado do último domingo, 4 de outubro. Participaram os ternos locais, Moçambique Nossa Senhora do Rosário, Congo Africano São Benedito, Moçambique Nossa Senhora de Fátima, além de um convidado da cidade de Romaria. O evento foi realizado pela Casa da Cultura com recursos do ICMS Cultural, utilizado no fornecimento de infraestrutura, alimentação para os participantes, aquisição de vestuário, instrumentos e suporte às festividades em geral.

A cerimônia começou logo cedo, com o encontro dos congadeiros no Espaço Cultural para o café da manhã. De lá, o cortejo seguiu para a igreja do Rosário. O Terno Moçambique de Nossa Senhora do Rosário conduziu o andor com a imagem da santa protetora dos negros e escravos até o altar montado em frente à igreja, onde foi celebrada a segunda Missa Conga de Monte Carmelo. Depois, o mesmo terno levou a imagem para dentro da igreja; os demais entraram, fizeram suas homenagens e todos retornaram ao Espaço Cultural para o almoço. À tarde, o cortejo de congado seguiu para Igreja Nossa Senhora de Fatima para homenagem (fotos de todas as etapas).

Mas a celebração nem sempre foi assim. Já houve uma época em que os ternos eram impedidos de entrar na igreja. “Existiu um tempo na historia que os negros ficavam distantes, não conseguiam chegar perto da igreja; hoje, de um jeito muito tranquilo, muito parcimonioso, a Casa da Cultura tem buscado fazer o diálogo e mostrar que a igreja está aberta e convida a todos para entrarem”, disse o padre local, Clério de Lisboa.

“A cada tempo, a cada momento, a igreja se abre mais às culturas e ela precisa estar aberta às iniciativas, ações, culturas, porque todos são filhos de Deus. O congado é cultura e religiosidade. Vamos incluí-los para participarem da igreja, da festa, inserir essa alegria e seus tambores”, afirmou.

“Estamos conseguindo uma articulação com a igreja católica para que esse movimento não se resuma a uma festa, mas, principalmente, que seja visto como um ato de respeito e fé a Nossa Senhora do Rosário”, disse o coordenador da Casa da Cultura, Álvaro Gomes. “Quando iniciamos, sentimos um afastamento muito grande entre a Casa da Cultura e os ternos. Houve inclusive um período em que o congado sobreviveu com muita dificuldade na cidade, chegando quase a desaparecer”, afirmou.

“A Casa da Cultura tem ajudado bastante. Por muitos anos nós não tivemos apoio de nada, tudo era feito por nossa conta. Isso, esse apoio, incentiva outras pessoas a participarem”, disse o presidente do Terno Congo Africano, Henrique Generoso de Souza.

Apesar das lutas diárias, a crença e os ensinamentos são transmitidos de pai para filho e assim o congado vai sobrevivendo ao tempo e segue conquistando novos integrantes. Alguns detalhes desses ensinamentos variam de acordo com a região do país, mas para o devoto isso não importa. Não importa, por exemplo, se antes de seguir para a igreja Nossa Senhora estava numa caverna, no mar, na floresta. O que vale mesmo é manter viva a fé na protetora e não permitir que a tradição se acabe.

“Tinha uma gruta na serra e o congado foi lá buscar a santa para levar para a igreja. Ela levantou um pouquinho e deitou. Então o congado foi embora. O Moçambique chegou e começou a bater e, de novo, ela levantou só um pouquinho e mais uma vez deitou. O preto velho viu que faltava uma coisa e buscou os copinhos para fazer o barulho. Voltaram e bateram e aí ela levantou e foi para igreja acompanhando o congo”, conta o chefe do Terno Moçambique Nossa Senhora do Rosário, de 86 anos, Gumercindo Rosa. Esta versão ele aprendeu quando começou a sair no terno, aos oito anos de idade.

Gumercindo só deixou de sair por dois anos, mas como tudo na sua vida começou “a dar errado”, voltou, e hoje está feliz. “Agora só saio quando Deus me chamar. Quando eu não posso dançar, mesmo assim acompanho o congado.” (Foto, sozinho)

No próximo domingo, 11, será realizada a primeira coroação de Nossa Senhora do Rosário da cidade.

História

A prática do congado na cidade não tem uma data precisa. Os congadeiros estimam que sua idade ultrapasse 100 anos.
“Sabe-se que no início do século, os negros comemoravam o dia da protetora dos escravos, Nossa Senhora do Rosário, sempre no primeiro domingo de outubro. Como ainda não existia a atual Igreja do Rosário, os negros se reuniam em alguma fazenda nas proximidades da cidade, escolhida por possuir uma capela. Lá rezavam a missa, geralmente celebrada por um dos membros dos negros, depois cantavam seus hinos e dançavam em louvor à santa. As fazendas localizavam-se em Buritis, Gonçalves, Santa Bárbara, Mateus e distritos de Monte Carmelo.
Uma conhecida senhora em Monte Carmelo, Dona Abadia, foi uma das maiores festeiras que o congado já teve. Natural de uma fazenda da região mudou-se para Monte Carmelo ainda menina. Dona Abadia, por demonstrar profunda devoção a Nossa Senhora do Rosário, mereceu a confiança do pároco da época, Padre César, para cuidar da imagem trazida de Portugal, que estava na Matriz (Paróquia Nossa Senhora do Carmo).

Dona Abadia e seu marido, Romualdo Resende, tomaram a iniciativa de construir uma Igreja para abrigar a valiosíssima imagem. Com recursos próprios, doações da comunidade e de algumas pessoas em particular, aos poucos a Igreja foi sendo levantada; o sino foi doado por Padre César e as obras foram concluídas em 1927.
A partir desta data, o congado passou a ser celebrado na Igreja do Rosário até os dias atuais. Contam que os dançadores ficavam acampados nas proximidades da Igreja; alguns eram acolhidos pela festeira Dona Abadia, que emprestava parte de seu terreno onde eles se acomodavam.

É importante ressaltar que a primeira capela foi erguida com tijolos de adobe, com muita simplicidade, a mando do Sr. Romualdo Rodrigues Resende, em 1926, para a comemoração da festa em homenagem a Nossa Senhora do Rosário. Nesta festa, já havia a apresentação do congado, folclore tradicional em nossa cidade.”

Texto extraído dos arquivos da Casa da Cultura.

Texto e Fotos – Outubro de 2015 – Casa da Cultura

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